A xenofobia e a liberdade de expressão 


No último dia 15.04.2021, o jornal The New York Times* veiculou uma informação que não chega a ser uma novidade na vida e nos eventos políticos, quando abordadoa na intersecção com a tecnologia, nomeadamente as redes sociais. 

A referida informação, que também foi repetida pelo jornal brasileiro Folha de São Paulo, em 18.04.2021, dá conta das condutas xenofóbicas e mesmo doentias de um indivíduo político de extrema direita, britânico, chamado Tommy Robinson. 

As práticas em si do cidadão em causa, mencionadas naquele jornal, não chegam a provocar espanto àqueles que repudiam comportamentos xenofóbicos, racistas, pois há muito conhecidas por estarem em sintonia com as condutas destinadas a alterar realidades do convívio social em nome de uma estúpida e imaginária "superioridade de raça" e, por isso, evitar imigrantes em "seu" pais e mesmo na Europa. Aliás, comportamentos com os quais a humanidade há muito tempo convive, mas nem por isso, ou por qualquer outro fundamento, devam ser aceitos.  

O que chama a atenção é o modo de operação e a ferramenta utilizada, que foram revelados por Caolan Robertson, um videomaker, cúmplice de Tommy Robinson, e que em 2019 optou por fazer uma espécie de "mea culpa" ao relatar como eles montavam os vídeos com as tramas de cunho xenofóbicos tentando demonstrar que os imigrantes, entre outros africanos e muçulmanos, constituem uma ameaça ao cidadão europeu. 

Nas palavras de  Caolan Robertson, os vídeos por eles "montados" tinham o específico fim de criar uma "câmara de eco" na rede social, no caso o Youtube, e com isso alavancar personagens que adotam práticas xenofóbicas à condição de referência na luta pela causa de ódio, criar verdadeiros "gurus". 

Chama a atenção o fato de que o cidadão protagonista no vídeo montando (Tommy Robinson), alegando ter sido atacado, agride covardemente um migrante africano, e em seguida se socorre da tecnologia para fazer a propaganda de ódio, por meio das redes sociais.  

A propósito, redes sociais que vem sendo massivamente utilizadas para fins como este, ao abrigo do tão propalado exercício da liberdade de expressão.  

Percebe-se assim que, se o discurso de ódio, a xenofobia e a estupidez nacionalista não são novas, as redes sociais como meios de divulgação destas patologias o são, e se revelam eficientes e cada vez mais utilizadas para este tipo de discurso, de forma a evidenciar o tamanho do desafio para a sociedade.  

*https://www.nytimes.com/2021/04/15/technology/alt-right-youtube-algorithm.html?searchResultPosition=1 

 

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Sobre o autor: Carlos Andrade é advogado (Brasil e em Portugal) na Andrade e Lai Sociedade de Advogados. Mestrando em Ciência Jurídica e Direito Tributário pelas Universidades de Lisboa e do Minho (Portugal), Especialista em Direito e Tecnologia da Informação pela Universidade de São Paulo (USP); MBA em Gestão Financeira e Econômica de Tributos pela FGV.